De repente, ela olha no espelho e espreme os lábios. Sua respiração está acelerada, enquanto todo o seu corpo treme de raiva. O que ela mais temia, aconteceu. O que fazer a partir daqui?!
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Qual direção devo tomar?! - sussurou para si mesma.
Suas unhas perfuram a pele da palma da mão e, imediatamente, lágrimas quentes rolam bochechas abaixo.
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O que devo fazer? - sussurra novamente e despenca no chão, como uma fruta podre.
Sua cabeça estava uma perfeita confusão, daquelas que ninguém seria capaz de organizar. De repente a avenida de sonhos perdidos e desvairados se abre a sua frente, enquanto ela os recebe de braços e dentes afiados. A raiva da semana toda entorna em uma única tarde, e bem que lhe avisaram, que as melhores coisas já se apresentam com data de validade marcada.
Sua respiração esta pesada demais com o maremoto que se forma ao seu redor. Ela tenta se manter sã, porém a loucura a agarra por um momento. Sua alma grita dentro do seu corpo, não é um grito qualquer. É aterrorizante!!! Daqueles que nos assustam a meia luz. Instantaneamente, seus olhos se tornam felinos e ela mostra suas garras. Ninguém a tinha visto dessa forma. Mas, ela conhecia perfeitamente a garota que assumiu o controle. Como um retrato envelhecido de contornos controversos. Então, ela respirou fundo. De repente, seus punhos se armaram e ela começou a socar a caixa que a prendia. Sem se importar com a ideia de agradar ou incomodar os admiradores de seu nobre coração.
A violência com que seus golpes acertavam a caixa, era no mínimo perturbadora. Cada sonho pensado e minimamente calculado, começava a ruir numa sintonia absurda de sentimentos. Rasgando a tela de sentimentalismo barato que lhe foi vendida e adotada. A bela princesa que jurou jamais se deixar levar ou abater, não existia mais. O desejo de dar dois passos para trás é grande, porém o barulho da caixa se rompendo, lhe para. De repente, uma chuva de flocos de neve a atinge.
O ar frio enche seus pulmões, enquanto seus olhos fecham. Então, sem qualquer aviso, ela começa a rir. Como quem liberta os pulsos das amaras que a encurralaram no poço de abstinência incontida, a espécie daqueles que usaram para domar seu verdadeiro eu. E o riso, tão assombroso e horrendo como seu rosto, passa a ecoar pelas paredes e abismos, acordando o ser que acreditávamos não estar mais lá. E ele também lhe sorriu, como quem saúda a morte antes de um fim ou em tristeza absoluta, e mais uma vez ela jura "vai ser diferente". Mas, ele vos pede por sangue, cortes e arranhões.
Porém, algo acontece. Do peito da garota, começa a emanar uma luz. Aos olhos do monstro não parece grande, mas aos dela é a chama de uma esperança. Suas energias se concentram naquela pequena bola de luz, e tão logo, a masmorra implode. Então, seus olhos vislumbram a luz do sol. Que mesmo perdendo espaço entre as nuances da noite, renasce nas cores de um novo amanhã. E tudo que a assustou passa a ser transmutado em um horizonte de quebra-cabeças e soluções.
- É hora de construir meu castelo de legos... - sussurra para si mesma antes de bater a poeira dos ombros e saltar das ruinas do seu passado.
Este conto foi escrito em parceria com a minha amiga/irmã Allyne Araújo. Como sempre, quando sentamos para escrever, contos malucos aparecem. ¯\_(ツ)_/¯