Teus olhos me fitavam com a mesma inquietação de outrora. Era tarde, mas você se recusava a ir. Claro, estava escrito na minha testa que havia algo errado, porém fugi do assunto a noite toda. Tu suspiraste pela milésima vez, impaciência e preocupação se mesclavam.
- Me diz o que há contigo! – exclamou pela terceira vez.
- Já disse que é melhor não mexer neste vespeiro! – rebati com certa ira.
- Inferno! – praguejou.
- Por que queres saber o que se passa comigo? – indaguei.
- És minha amiga... Importo-me contigo! – respondeu.
- E como podes ser tão cego? – provoquei.
- Como assim? – perguntou confuso.
- Não vês que por trás de dez abraços, existem mil beijos de amor. Todos direcionados a você! – salientei.
- Você está louca? – inquiriu.
- Quer saber? Acho que estou... E sinceramente, me dê um tempo e deixe-me respirar... – pedi.
- Tempo? Por quê? – pesquisou.
- Tudo está mudando tão rápido que eu não consigo controlar! Você é um bobo! Eu já não suporto sua timidez, tampouco esse jeito de bom moço, além é claro de toda essa sensatez absurda. – ataquei.
- Quer dizer que eu sou o culpada? – concluiu.
- Se você diz... O que sei é que perdi tempo demais tentando entender e buscando me enganar. Se por um lado nós somos amigos, pelo outro nós somos o que? – averiguei.
As palavras se esgotaram, então o silêncio ficou insuportável. Uma lágrima singela beijou meu lábio superior, enquanto minha respiração aliviava o coração.
- Vejo que nada vai mudar... Mas não vou ficar aqui esperando que tome qualquer decisão... Minha vida não deve parar, portanto se quiser ficar com o pé em duas canoas... Sinta-se a vontade! – afirmei com ironia.
- O que vais fazer? – investigou curioso.
- Espere e verás... Ah! Não te esqueças que a realidade se transforma a cada nascer do sol... – explanei calidamente.
Então lhe dei as costas e segui na direção oposta.
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